Arquivo para a Categoria ‘Artigos’

Cine Excelsior: local de resistência nos tempos da Ditadura Militar

Há muitas histórias envolvendo o Cine Excelsior, muitas delas ainda não foram contadas. Entre as mais interessantes, envolvem os anos da ditadura.

Houve um tempo em que reunir-se pública ou reservadamente era considerado ato de insubordinação à pátria, ato revolucionário contra a ordem pública e afins. Mas, neste mesmo período recente da história brasileira, existiram lugares que transgrediram tais impedimentos da ordem política e serviram de local de encontro, de trocas de idéias e, principalmente, serviram de espécie de “janela de escape” para o que era proibido, censurado ou reprimido pela ditadura militar.

Nos anos de ditadura, Juiz de Fora representou papel importante neste cenário político, pois acabou exercendo o papel de “cidade-marco”, de onde o golpe de 1964 foi deflagrado e de onde as tropas dos generais golpistas partiram para tomar as cidades do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Belo Horizonte e da capital Brasília. Apesar da veracidade dos fatos, tudo aconteceu no dia da mentira, dia 01 de abril de 1964.

Mesmo neste período “pesado”, a peso de “chumbo”, de intensa agitação militarista, a cidade de Juiz de Fora também teve seus locais de resistência contra o regime: a Galeria Celina, a Igreja do Estela Matutina, 0 Colégio Magister e tantos outros.

O fato é que pensamentos divergentes e libertários tiveram nos espaços de cultura o seu porto-seguro para reflexão sobre os acontecimentos que afetavam o povo e consequentemente todo o país.

Neste contexto, poucos sabem, o Cine Excelsior foi um destes locais de resistência, em que o impedimento do Estado Ditatorial não conseguiu abalar os desejos dos cinéfilos da época, sendo palco, muitas vezes, de sessões especiais (muitas de caráter clandestino) para exibir filmes proibidos, “revolucionários” ou “procritos”, pela censura militar daquela época.

Uma destas sessões foi, em particular, muito emblemática e histórica. Em pleno ano de 1968, pela primeira vez numa sala de cinema da cidade, numa sessão clandestina à meia-noite (após a última sessão comercial diária), sem alarde, só para convidados, foi exibido em sua grande tela o filme “O Encouraçado Potemkin” (Bronenosets Potyomkin, 1925) do cineasta soviético Sergei Eisenstein.

Tal filme nunca havia sido exibido na grande tela e, mesmo antes do golpe de 64, sempre foi restrito a cópias em 16mm (de cineclubes e de pequenos recintos, muitos deles acadêmicos ou particulares fechados). Nesta sessão histórica, estavam presentes mais de 1.000 pessoas, pois a sessão ficou lotada. Dentre elas, o saudoso jornalista Décio Lopes, o professor Murilo Hingel e tantos outros notórios da vida cultural e política da cidade.

Infelizmente, vários protagonistas desta história já não encontram-se entre nós… e as testemunhas daquele período, que viveram naquela época, muitos até presentes àquela sessão clandestina do filme soviético, parecem preferir esquecer aquele lugar, esquecendo o enorme valor histórico-artístico do Cine Excelsior para nossa identidade cultural.

Com tanta história ainda por ser descoberta, nosso Movimento luta para preservar o Cine Excelsior ainda vivo no meio cultural de nossa cidade e região.

Livros dançantes

O Maravilhoso Teto do Cine Excelsior

Para quem conheceu o Cine Excelsior, além da grande tela, excelente acústica e conforto, o que mais chamava a atenção na sala era o seu magnífico teto.

Marcado por sinuosas ondas em formas variadas, onde luzes de néon multicores faziam uma suave iluminação (e em camadas), o teto do cinema, como todo o projeto do edifício, foi projetado pelo arquiteto Armando Favatto, que possui pelo menos mais duas obras de destaque na cidade de Juiz de Fora, entre elas o projeto original do Colégio Jesuítas (1959) e o edifício da TV Industrial (1964), no Morro do Imperador.

Armando Favatto também projetou o Palacete Cine Brasil (1947), na cidade de Caratinga (MG), construído igualmente ao gosto art-déco, pouco mais de dez anos antes do Cinema Excelsior de Juiz de Fora (inaugurado em fevereiro de 1958). Talvez este fato dificulte o entendimento do espaço como sendo um espaço de valor arquitetônico, mas aqui se discute o interior do cinema, fruto do gosto Art-Déco, em período mesmo que tardio, visto que o auge desta manifestação decorativa se deu entre as décadas de 20 a 40 do século XX.

A Arquiteta e Urbanista Milena Andreola de Souza, Presidente da ONG Permear, realizou neste mês um parecer técnico, no qual disserta sobre o uso do art-déco na construção dos cinemas de Juiz de Fora, afirmando que “é claramente uma leitura do que acontecia nas capitais, e aí inclui-se Belo Horizonte, utilizando uma linguagem já difundida no centro da cidade, especialmente na Rua Halfeld, Marechal Deodoro e Praça João Penido. Encontramos como exemplares o Cine-Theatro Central (1929), que apesar de não expressar propriamente o estilo por uma série de razões históricas, encontra-se numa praça ladeado por edificações art-déco, O Cine São Luiz (segundo quartel do século XX) e o Cine Palace (1941), estes sim exemplares autênticos, ambos localizados na região central da cidade. É importante destacar que todos estes edifícios culturais são bens tombados de Juiz de Fora. O Excelsior, dada a sua implantação, levou o gosto desta modernidade da época para o seu interior, já que não era possível fazê-lo externamente.”

Longe de parecer tão somente uma invenção arquitetônica de extrema beleza estética, que remetia os espectadores a um certo limiar da dimensão real com algo pertencente ao sensível (próprio da sétima arte), o teto do Cine Excelsior, concebido por Armando Favatto, é um genial e cuidadoso estudo de acústica, que acaba sendo um exemplo perfeito entre o valor estético e a função da obra arquitetônica.

Interessante é a disposição discreta dos pontos do ar-condicionado, em meio as curvas multicoloridas, que, no conjunto, lembrava-nos uma enorme lança medieval a sair da grande tela branca frontal. Cabe ressaltar, que a iluminação indireta (tanto do teto como das paredes laterais) davam calmaria ao recinto e à medida da aproximação da hora do filme as luzes iam se apagando gradualmente até que a sala ficasse totalmente escura e todos espectadores já acomodados.

Por todas estas razões, então, pergunto: por que o Conselho do Patrimônio Cultural (COMPPAC) não quer ou insiste em votar contra o tombamento do Cine Excelsior? Juiz de Fora só perde com isso… mas alguém deve estar ganhando muito com isso!

Franco Groia em divertidas faces Multicores

O Cine Excelsior e a TV em Juiz de Fora

No Brasil, a primeira transmissão de televisão deu-se por conta do leopoldinense Olavo Bastos Freire, que construiu os equipamentos necessários e transmitiu uma partida de futebol em 28 de setembro de 1948, na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais. Isto é fato, é história. O trem da história passou o primeiro canal de televisão acabou nascendo em São Paulo e Juiz de Fora apagou-se neste aspecto… Pouco divulga-se sobre o pioneirismo de Olavo e, infelizmente, até hoje a cidade não possui um espaço permanente de exposição e promoção deste cientista auto-didata, muito menos de seus escritos e equipamentos únicos…

Mas o que quase ninguém sabe é que a história do Cine Excelsior está diretamente ligada à história da TV comercial em Juiz de Fora, iniciado no final dos anos 50. E que acabou propiciando o título de primeira cidade do interior do país a possuir sinal próprio de TV.

É importante lembrar que a transmissão de televisão chegou ao município de Juiz de Fora graças a um encontro entre o Dr. Oldemar Schmitz, então representante da empresa Emerson (que forneceu os projetores do Cine Excelsior) e o jornalista Luiz Antônio Horta Colucci no dia da inauguração do Cine Excelsior, em fevereiro de 1958. Se o empreendimento cinematográfico não tivesse a importância tecnólogica (da novidade tecnológica do cinemascope), este encontro – entre os empresários – nunca aconteceria.

A partir daí, foram encomendados o transmissor para o sinal televisivo e aberta a primeira loja de aparelhos de TV da Cidade.

Assim, graças às pesquisas históricas de pessoas como a do jornalista Flávio Lins (que nos informou sobre os fatos aqui descritos), estamos provando a linda e importante história desta sala de cinema juizfora, o Cine Excelsior, que está intimamente presente na própria história audiovisual da cidade e de seus habitantes.

A pesquisa de Flávio Lins, sobre esses primórdios da televisão em Juiz de Fora, pode ser conferida em seu documentário Cariocas do brejo entrando no ar, que será exibido no Festival Primeiro Plano 2011 (no sábado, dia 03 de dezembro), além de estar editada em livro brevemente pela EDUFJF em edição especial (a ser lançado no início de 2012)

Vamos resgatar e salvar esta importante sala cinematográfica, preservando os vestígios de memória audiovisual não só para Juiz de Fora mas para nosso país!

Saída real para o Cine Excelsior: o BNDES

Pelas características do empreendimento e a atual situação da sala, a saída para o Cine Excelsior é, naturalmente, buscar recursos via-BNDES para a rápida retomada do imóvel e posterior reestruturação do mesmo através de uma gestão compartilhada.

O BNDES, um dos principais agentes financiadores da economia brasileira, é hoje também um dos protagonistas do desenvolvimento do cinema nacional.

A indústria do audiovisual apresenta um grande potencial de crescimento no Brasil, com impactos diretos tanto no aumento da geração de renda e emprego quanto na identidade e bem-estar social. Para o BNDES, trata-se de um setor capaz de contribuir substancialmente para o desenvolvimento do país.

Por isso, o Banco, por meio de um programa de financiamento específico, chamado BNDES Procult, oferece um leque diversificado de instrumentos financeiros voltados para a cadeia produtiva do audiovisual nacional, ou seja, para a produção, distribuição, exibição e infraestrutura do setor, de modo a fortalecer e consolidar essa cadeia produtiva como um segmento econômico em sua plenitude.

Entre o extenso leque de instrumentos financeiros voltados para o setor audiovisual, um em particular é a saída real para a situação do Excelsior: trata-se do programa Cinema Perto de Você. Instituído originalmente pela Medida Provisória 491/2010 (veja a íntegra aqui), o Programa se organiza em torno de um conjunto de mecanismos e ações diversificadas, destinadas à melhoria do ambiente de negócios e da oferta de capital para empreendimentos no setor da exibição.

De um lado, há linhas financeiras para estimular os empreendimentos privados, além de recursos para a abertura de salas por Prefeituras e Governos Estaduais. De outro, o programa institui instrumentos de desoneração fiscal, visando à redução dos custos dos investimentos e da operação dos complexos. Articula, também, ações regulatórias e de estímulo à digitalização, visando à ampliação das receitas e à modernização dos negócios de exibição e distribuição de cinema.

Em 29 de setembro de 2011, o governo federal, reeditou este Programa por meio de uma nova Medida Provisória 545.

O Audiovisual de Juiz de Fora precisa utilizar-se desse mecanismo para investir em projetos de estruturação do setor no município. A retomada e revitalização do Cine Excelsior é um grande passo neste sentido! Todos setores da sociedade devem conscientizar-se deste importante aspecto.

A mobilização, portanto, faz-se necessária para buscar este objetivo de conseguir sensibilizar o poder público para decretar a imediata UTILIDADE PÚBLICA do imóvel e a posterior retomada do mesmo através da sociedade civil organizada com recursos do BNDES.

Para cima

Bem-vindo!!

Este é o site oficial de Franco Groia. Mineiro de Juiz de Fora, Groia é cineasta e professor da Universidade Salgado de Oliveira. Bacharel em Comunicação Social pela UFJF, especializou-se em Globalização, Mídia e Cidadania (UFJF) e trabalha com projetos audiovisuais e publiciade, atuando nas áreas de formação, criação, produção e direção. Além de diretor e produtor de cinema e tv, desenvolve novas aplicações da imagem em movimento com as artes visuais.